quarta-feira, janeiro 29, 2014

Quem escolhe em quem voce vota?

Enquanto o brasileiro continuar discutindo coisas boçais, vamos continuar ocupando o mesmo lugar que sempre ocupamos no mundo. Mas é a escolha do brasileiro: parar tudo para discutir o capitalismo, o socialismo, a copa do mundo e futebol.. é o famoso ser ou nao ser tupiniquim...

Até aí, tudo bem. O que nao sei bem é se esses diferentes projetos estao claros para a populacao, isso não é só culpa da mídia, mas dos políticos e da própria sociedade, que adora discutir várias coisas ao mesmo tempo, misturando as definições e as paixões.

Com isso, metade da discussão se perde. Ninguem sabe ao certo o efeito das política públicas, dos gastos, dos investimentos, nem o governo tem a menor noção disso, tudo não passa de "achismo".

Todos querem igualdade, justiça, etc... mas não se pode ignorar o mercado, pois ele é exatamente o que escapa do controle do estado e das pessoas. É como a água, não adianta querer pegá-la de qualquer jeito, que voce não consegue. O mercado é o real, o discurso político é o imaginário. Na prática real do mercado, as pessoas trocam o debate político por mais dinheiro, prazos, salários, oportunidades. E voce pode entrevistar as pessoas antes para saber o que elas acham moralmente mais correto, mas elas não vão seguir o que falaram no momento em que as oportunidades aparecerem.

Então, vc pode chamar o governo de como quiser (tipo neo-anarco-socialismo), mas sempre vai continuar existindo aqueles que se beneficiam mais do que os outros, que mantém privilégios do governo, informações secretas, que se vendem pelo dinheiro, que são mercadores da morte, que são traficantes, vagabundos, ou como quiserem chamá-los. A luta de qualquer governo não é contra ou ideologia, isso é mera desculpa, e sim contra esses "cupins" que estão infiltrados em todo o governo e corroem a máquina por dentro.

Entao, o bolsa família é ótimo? é.. e os outros programas? Qual é o custo deles? O que a gente tá ganhando e o que estamos perdendo? O que pode existir de mais libertador, especialmente nas eleicões, é a possibilidade de uma escolha real, entre diferentes projetos, bem delimitados. Escolher pelo voto é dar maioridade ao povo, mas muitas vezes o discurso ideológico dos próprios políticos (e da sociedade) visa justamente a confundir o eleitor para que não sejam visíveis as diferentes opções. Dessa forma, monta-se o discurso do bem e do mal, dos brasileiros contra os entreguistas, de um bando de encastelados discutindo, com o dinheiro público, a realidade metafísica do capitalismo, nesse panelão que é o Brasil, destinado a ficar borbulhando em banho maria para sempre.
   
     Daí retorna-se às velhas discussões sobre economia, capitalismo, sobre os juros, os lucros, a ambição, a ganância, e outros assuntos que remontam à teologia cristã durante a Idade Média. Enquanto os mais espertos, ou os engenheiros, os matemáticos e outros menos apegados ideologicamente enchem os bolsos sem a menor culpa.

     Repito: Até que ponto o brasileiro é capaz de fazer escolhas? Até que ponto o brasileiro entendeu como funciona a democracia, que o voto serve para ti, que o importante são suas condições de vida, o que ele vê ao redor, e não para atender nenhuma entidade moral e imaginária, em geral alheia aos seus problemas. Supondo que essa questão seja solucionada, mais problemas aparecem: ainda que saiba o quer para si, as propostas não são bem definidas, o sistema eleitoral não é perfeito, os políticos procuram confundir o eleitor, que é afinal uma parte muito pequena de todo o processo.

      Ou seja, ainda que o eleitor saiba o que quer, o sistema eleitoral não supre sua insatisfação ou seu incômodo, pelo contrário, pode até aumentá-los, pois querer não é poder, e uma minoria nunca pode se preponderar a uma maioria, apesar que a democracia também implica o respeito aos direitos de todos. Ainda que todos saibam o que querem e não haja ilusão dos políticos, para as coisas funcionarem bem é necessária uma grande dose de coincidência entre os diversos interesses, sempre respeitando os interesses da minoria, de modo que o gigante acorde e não volte a dormir.


MAC


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A propósito:


O copo e o vento"O que a eleição pode trazer de melhor é a explicitação de projetos divergentes, com defesas consistentes dos dois lados"


João Paulo
Editor deCultura - e-mail: jpaulocunha.mg@diariosassociados.com.br

Publicação: 25/01/2014 04:00

Copo d'água, obra do artista plástico Iran do Espírito Santo, que pode ser vista na Galeria Mata, em Inhotim (Maria Tereza Correia/EM/D.A Press-22/10/08)
Copo d'água, obra do artista plástico Iran do Espírito Santo, que pode ser vista na Galeria Mata, em Inhotim


“É sempre bom lembrar/ que o copo vazio/ está cheio de ar.” Os versos de inspiração zen-budista da canção de Gilberto Gil parecem sintetizar, muitos anos depois, a situação real do nada sagrado tempo em que vivemos. Enquanto poucos e eloquentes cantam o copo vazio da crise que se avizinha inexoravelmente, a maioria parece bastante otimista, tocada pelo vento seguro, como uma nau de velas pandas. 

Em outro contexto, o psicanalista francês Jacques Lacan apelava para a existência de três constituintes do universo psicológico – o real, o simbólico e o imaginário. Não parece ser outra a relação das pessoas com a sociedade e a política. Há o real, dos que vivem o dia a dia; o imaginário, dos que desejam outro cenário; e o simbólico, que pode ser traduzido nas ideologias que de certa forma amparam os dois lados em conflito.


O que a canção e a psicanálise têm a nos dizer, quando se trata de economia e crise, é que sabemos sempre menos do que precisamos. As certezas se mostram a cada dia mais caducas e exigem não apenas abertura para o novo, mas honestidade de propósitos. Algo que é essencial sempre, mas que se torna civilizador quando se entra, como agora, no calor de uma eleição.


O ponto de discordância entre os pessimistas – do meio copo vazio – e os otimistas – do copo meio cheio – é, mais uma vez, a precedência dada à economia quando se discutem divergências políticas. Tudo se passa como se houvesse alguns universais a serem perseguidos (controle da inflação, estabilidade, pleno emprego, crescimento sustentável) e pequenas diferenças na forma de chegar a esses objetivos.


No entanto, a própria colocação do problema já antecipa o sentido do debate. É preciso lembrar sempre que a opinião pública, de certa maneira traduzida no Brasil pela opinião publicada pela chamada grande imprensa, parece ter apenas como norte a defesa dos valores liberais de mercado. Para entrar na roda, é preciso de antemão se localizar entre os “capitalistas modernos”, que pela cartilha da mídia é quase uma redundância. Ainda que falsa em seus fundamentos.


Por isso, o tratamento dado à economia no contexto das disputas políticas precisa ser feito com mais honestidade. Tipo papo reto. Não há consenso, como se propaga, que o melhor receituário é o que incorpora a inflação na meta, câmbio livre e equilíbrio fiscal, com atenção especial ao superávit primário. Essa equação quase sempre desanda para a subida de juros, volatilidade de capitais e garantia do ganho do setor financeiro rentista, mesmo à custa do arrocho do contribuinte.


Trata-se de uma economia ligada a valores que são menos do mercado (uma entidade quase mágica) e mais do capital (que pode ser fetichista, mas não tem nada de irreal). Os chamados fundamentos da economia são, na realidade, uma forma técnica de defesa de uma opção nitidamente política. Além do mais, tal receituário, aplicado por décadas nos países ricos com o lastro das economias dependentes, está fazendo água, com alto grau de desemprego e insegurança social em muitos países da Europa. A ideia de uma social-democracia para poucos não pode mais subsistir num cenário de demanda real de melhoria do padrão de vida para todos. 


No lado da economia das pessoas comuns a sensação é outra. Mesmo com a ameaça da inflação como grande atiçador brandido por parte da oposição, a melhoria do padrão de vida é patente. Programas sociais vitoriosos – na área da distribuição de renda, oportunidades na educação e moradia – são traduzidos no dia a dia como novo patamar qualitativo de existência. E, o que é mais significativo, alteram a relação das pessoas com a sociedade e com a autoestima. Há uma postulação de direitos, tomados como naturais e evidentes, que é ainda mais importante que as conquistas meramente materiais.


Se o fato fosse apenas a distinção de projetos para a sociedade brasileira – e é para isso que servem as eleições – tudo estaria no melhor dos mundos. Bastaria apresentar as propostas existentes e dar ao povo liberdade de escolher. No entanto, o que se percebe é um atravessamento moral do debate, como se estivesse em jogo a verdade ou, em outras palavras, o bem contra o mal. Sempre que se descamba para o terreno do moralismo, quem perde primeiro é a política. Uma eleição que resgata a política começa bem. É o que se espera dos próximos lances. Ou então, o que sobra é um misto de descontentamento alienante (“todo político é ladrão”) somado a uma cobrança por eficiência (“padrão Fifa” ou “Primeiro Mundo”).


O projeto liberal, representado pela oposição – e por isso é bom que Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central na gestão de Fernando Henrique Cardoso, esteja sendo apresentado, ainda que informalmente, como economista-orgânico de Aécio Neves, possível candidato do PSDB às eleições presidenciais –, vai na linha da defesa dos chamados fundamentos da economia de mercado. São propostas vindas do setor financeiro, com trânsito privilegiado pelo mercado de capitais, como indica a origem de Fraga. 


É isso que a eleição pode trazer de melhor, a explicitação de projetos divergentes, com defesas consistentes dos dois lados: o neodesenvolvimentista, do atual governo; e o neoliberal, das oposições (para ficar mais amplo, é só lembrar que no caso de Eduardo Campos, virtual candidato do PSB, sai Armínio e entra Giannetti da Fonseca na seara da economia, sem mudanças substanciais). É com esses elementos, desdobrados nos debates em propostas concretas, que o eleitor vai ter que se dar para fazer sua opção. Não com a escolha entre Deus e o diabo, entre a mentira e verdade, a modernidade e o atraso. Na vida, como na política, as metáforas são apenas fantasmas.


MAGAZINE CONECTION
 No começo da semana, num programa da TV paga, Manhattan conection (um exemplo antipático de subserviência colonial e intelectual da mídia brasileira, que costuma indicar o melhor pãozinho de NY), a empresária Luzia Trajano, dona de uma rede de lojas de varejo, foi posta na arena dos leões do ultraliberalismo. Em desvantagem numérica – estava sozinha contra um economista e três jornalistas alinhados com a tese do copo vazio –, ela mostrou números, propósitos e ações que fazem a diferença entre a teoria catastrofista e a realidade. 


De um lado, a ameaça da bolha; do outro, a celebração do crescimento do emprego e do consumo; um setor defendendo o capital transnacional, a varejista apontando a especificidade do nosso mercado. O programa foi ainda exemplar em outro aspecto, sobre o qual ainda temos que melhorar muito: a capacidade de ouvir o outro. Na arrogância que caracteriza a elite brasileira (da qual a imprensa é um bom sucedâneo), existe sempre a palavra autorizada, que um dia Marilena Chauí nomeou de “discurso competente”. Luzia, na contramão desse jogo de cartas marcadas, levou ao telespectador, além da comunicação fácil e sincera, a sabedoria que faltava a quem sempre se defendeu mais com padrões morais que com a realidade.


Luiza pode ser empresária, mas é mulher, deixa claro que veio de baixo e atua num setor pouco charmoso do mercado (vender papéis podres e carros insustentáveis é mais chique que negociar chapinhas e tanquinhos). Por isso tinha tudo para ser diminuída e tratada como um dinossauro (o jornalista Diogo Mainardi, que mostrou sua ignorância com relação aos números da inadimplência brasileira no comércio, chegou a varticinar a venda do magazine para uma pontocom americana). O resultado, no entanto, como se viu durante a semana nas redes sociais, foi uma empatia dos argumentos da empresária com o sentimento das pessoas.


Essa talvez seja a lição mais importante para quem está preocupado em dar o rumo certo ao debate econômico durante o franco período eleitoral que vivemos. Quem vota não são os colunistas de economia e seus leitores, cada vez mais parcos e desinformados, mas as pessoas comuns. E, por uma regra de mercado, destas que não costumam falhar, geralmente a maioria está certa, já que a inteligência e o bom senso não são atributos de classe. Uma Luzia Trajano vale mais que quatro comentaristas. Com o voto, a lógica é a mesma: a realidade sempre liquida a teoria vazia e cheia de ar.

sábado, janeiro 25, 2014

Pobreza ou desigualdade?

A desigualdade pode ser pensada em diferentes aspectos. A renda ou a riqueza são interessantes para medir a variância do fluxo e do estoque monetário. A desigualdade de capital humano está correlacionada com a desigualdade de renda. Em um mundo perfeito e sem incertezas, a desigualdade seria zero, todos seríamos ricos e não haveria necessidade do trabalho. O mercado exige no entanto a remuneração dos fatores de acordo com  seus esforços, de modo que alguma desigualdade pode ser necessária e deve ser tolerada.

A desigualdade é especialmente danosa quando ela condena milhares de pessoas para a pobreza, sem que sejam oferecidas oportunidades profissionais e de uma plena vida social e cultural. Essa desigualdade nada tem a ver com a remuneração dos fatores de acordo com o esforço e a meritocracia, mas com privilégios e incentivos perversos impostos por uma pequena parcela da população que monopoliza o poder político e econômico, e que portanto não criam e não produzem nada.


Essa discussão é especialmente pertinente ao Brasil pois os programas de transferência de renda que visam exclusivamente a redução da desigualdade da renda parecem estar chegando ao limite, após forte expansão e fortes impactos nos últimos anos. É possível a redução permanente da desigualdade de renda ou riqueza quando se há enorme discrepância educacional e no acesso a fatores básicos de vida, como saneamento básico, escolas e sistema de saúde? A redução da desigualdade de oportunidades básicas nas fases iniciais de vida pode resultar em enormes oportunidades ao longo de toda a vida

O governo priorizou nos últimos anos a redução da desigualdade de renda, em detrimento do próprio crescimento e do nível geral de renda. A redução dessa desigualdade evita os danos de uma concentração excessiva de poder, mas não deveria ser vista como objetivo final de suas políticas. A pobreza é um indicador muito mais eficaz para se avaliar a eficiência das políticas públicas.

https://openknowledge.worldbank.org/bitstream/handle/10986/2580/468270PUB0Meas101OFFICIAL0USE0ONLY1.pdf?sequence=1


http://globotv.globo.com/globo-news/entre-aspas/t/todos-os-videos/v/relatorio-de-ong-mostra-que-desigualdade-social-no-mundo-aumentou-consideravelmente/3093854/


MAC




sexta-feira, janeiro 24, 2014

Robot Economicus

Adam Smith economics can’t be seen as value-neutral driven. Modern Economists misread the father of economics by either not reading The Theory of Moral Sentiments or by considering it independent from his other book, slightly more famous. Oddly enough, the so-called father of economics gave birth to a child that didn’t share the Scottish Enlightenment’s DNA, for Smith’s reasoning was embedded on Scottish Tradition under which moral concerns played a major role.


Born out of Smith’s wedlock with the Illuminati, not exactly nine months after the author’s major academic intercourse in 1776, the Homo Economicus, put it short, is a misinterpretation of Smith’s self-interest concept.

Little by little the politique was taken away from the économique and economics became mathematics. In order for economics to be a science such as physics men were reduced to atoms. Quoting Murray Gell-Mann, “Think how hard physics would be if particles could think”, now, think how hard economics would be if men had feelings? Modern economics, under the streetlight effect, asks not this question. A drunken mainstream economist is looking for his car keys under a lamppost, a younger economist asks whether he has lost his keys there, the prominent economist replies: “No, I lost the keys somewhere across the street, but the light here is better”. The youngster follows his master with all his heart, ironically, for heart matters belong not to the modus operandi of his science. He gets thrilled when his paper proving that emotions play no role in economics wins the Clark Medal. In the following years he gets completely obsessed with the possibility of winning the Nobel. Unfortunately this fairy tale doesn’t have a happy ending; during his lifetime another economist was actually able to prove that humans are robots, hence winning the Nobel prize for his major contributions in fostering the scientific inherent aspects of life.

Passionate economists argue that Robot Economicus inhabits our world, they twist-and-shout and scream-and-cry to defend their deep beliefs. Just don’t blame Adam Smith for our blindness, the man he portrayed wasn’t ruled by algorithms:


Though every man may, according to the proverb, be the whole world to himself (...) Though his own happiness may be of more importance to him than that of all the world besides (...) In the race for wealth, and honours, and preferments, he may run as hard as he can, and strain every nerve and every muscle, in order to outstrip all his competitors. But if he should justle, or throw down any of them, the indulgence of the spectators is entirely at an end. It is a violation of fair play, which they cannot admit (…) They readily, therefore, sympathize with the natural resentment of the injured, and the offender becomes the object of their hatred and indignation”.

quarta-feira, dezembro 18, 2013

Texto inaugural da FP

"  Este é o texto inicial da formação da FORÇA POPULAR, uma organização cujo principal objetivo é unir brasileiros comprometidos com o futuro do país, para propormos mudanças por meio de passeatas, cartazes, faixas, jornais e etc. Isto pode ser o parágrafo introdutório de uma folha de papel que ficará perdida em alguma lata de lixo, mas pode ser o início de um movimento popular importante, que possa efetivamente atingir seus objetivos e resgatar o nosso espírito de luta. Por isso só nos resta seguir em frente e buscar apoio para essa empreitada. Aliás, buscar apoio será a nossa principal vocação daqui para frente.

Primeiramente, gostaria de expor o objetivo dessa organização, que pode se resumir naquele axioma conhecido por todos em todos os lugares do mundo: “A união faz a força”. Assim, queremos unir a maior quantidade possível de pessoas, formando, então, um grupo forte e coeso, disposto a incomodar a todos que se encontrem acomodados nos poderes de nossa sociedade. Iremos realizar reuniões para discutirmos e planejarmos manifestações contra o que nos revolta em nosso país.

Percebemos que existem milhões de brasileiros indignados com as diversas situações negativas e mazelas de nossa sociedade, sendo os políticos, não por acaso, os alvos principais de nossas críticas. No entanto, o que é mais espantoso, é que existem poucas manifestações populares nas ruas exigindo mudanças. Nossas conspirações são mentais, individuais. Nos sentimos bem em ficar acomodados esperando a hora de aparecer algum “salvador” para mudar essa situação. Por isso, agora é o nosso momento de agir. Porque não podemos ser o germe dessa revolução? Iremos continuar a invejar franceses, argentinos e estudantes brasileiros dos anos 70, por possuírem a consciência da força e importância do povo para um país? É claro que existem diversas manifestações ocorrendo em nosso país, mas são poucas, tendo em vista os problemas enfrentados por nós. Como dizia H. D. Thoreau, em seu clássico A Desobediência Civil, existem novecentos e noventa e nove defensores da virtude para um homem virtuoso.   Vamos, então, continuar a defender, em nossas cabeças, o futuro de nosso país ou iremos lutar para isso? Fiquemos com a segunda opção e fundemos a FORÇA POPULAR.

Penso em realizar reuniões semanais para discutirmos o foco do protesto e as questões ligadas à organização do movimento. Por meio de todos os portais de comunicações atuais, como orkut, msn, e-mail, tel e outros, iremos formar uma rede compacta de membros com semelhantes objetivos. Cada membro terá o papel de divulgar o projeto e trazer novos membros. Assim, de maneira progressiva, iremos formar um grande grupo, possuindo o contato direto de centenas ou milhares de companheiros dispostos a manifestarem e exigirem mudanças. Os debates servirão para discutirmos o que será o nosso alvo e as formas e meios de protestarmos.

Nosso objetivo não é formar um grupo particular, restrito, mas um grupo com a heterogeneidade característica do povo brasileiro, de modo a defender o interesse de todos e não de um pequeno grupo ou classe. Não objetivamos poder ou fama, nem nos tornarmos um partido político no futuro. Pelo contrário, queremos ser uma força paralela, investigativa e questionadora dos poderes executivo, legislativo e judiciário. 

Essa é apenas uma proposta imatura, que necessita  ser melhor trabalhada e discutida. O próprio nome do movimento é provisório e caso apareça um melhor iremos mudar. Discutiremos todos os pormenores do movimento, escreveremos um manifesto e, a partir daí, começaremos a buscar apoios. Caso queira participar me mande uma resposta e, assim, realizaremos uma primeira reunião para fundarmos de fato essa organização.

     Um aperto de mão"



Fevereiro de 2009



quarta-feira, setembro 04, 2013

Dilma, ações emergenciais e as brechas institucionais



  Chegaram de avião os médicos cubanos salvadores da pátria. Já no saguão do aeroporto, guiados pelo ministro-candidato da saúde, Padilha, as primeiras declarações não deixavam dúvidas: vieram para trabalhar nos locais ermos e pobres, para ajudar em um causa humanitária. Vieram para fazer exatamente o que os brasileiros não querem, por estupidez ou egoísmo - e o melhor, eles ficarão "presos" a esses locais, de modo a não concorrer com os brasileiros nos grandes centros.


         Eu torço para que a Dilma consiga fazer seu programa dos médicos, porém ela governa um trem desgovernado, uma espécie do "governo que não havia lá", ou "o governo que não existe". Torcer não remove montanhas. A trajetória da Dilma e do governo infelizmente não dão esperanças.


       A maioria dos governistas achavam até outro dia que estávamos ótimos - o Brasil estava em um mar de rosas, enquanto o mundo desenvolvido pagava seus pecados. Tudo bem se o governo Dilma não era lá essas coisas, o Brasil já tinha mudado com o Lula, e, de certa forma, ficar “parado” (o governo) já garantiria naturalmente o desenvolvimento brasileiro.


        As manifestações e a guinada na economia mundial parecem ter sido um balde de água fria na cara dos petistas e simpatizantes, ou ao menos obrigou o governo a olhar para o lado e tentar mudar o discurso unilateral e autoritário. O engraçado, porém, na prática política, é a capacidade de distorcer as ideias e os símbolos, ou seja, o governo se aproximou das manifestações de rua, mas sem mudar de fato em um triz o seu modo de governar. É como se o animal petista-brasilienses virasse o pescoço, mas não virasse o corpo de fato, ao grunhido das ruas.

 
     Quem é contra os médicos? É a nova bravata da presidente Dilma. Mas como acreditar em um governo que de fato não existiu? Como acreditar em um governo, que se contentou com seu crescimento vegetativo e não alcançou nenhuma das metas estabelecidas, poder, agora, há um ano das eleições, implementar um programa emergencial que consiga sanar de forma imediata grande parte dos problemas relacionados `a saúde no Brasil? Se uma medida consegue ser eficiente e atinge grande parte de seus objetivos é porque ela  deveria ser alçada a uma política de estado, e não a uma reles “condição emergencial”. Políticas emergências são usadas em catástrofes, desastres inesperados e epidemias, ou seja, situações realmente inesperadas. Situações crônicas de calamidade social, que se estendem a séculos, deveriam ser tratadas com planejamento e eficiência. Se não é o caso, o governo deveria admitir logo que a saúde brasileira vive em estado de guerra permanente (o que não é muito distante, nem desconhecido) e que o programa visa apenas  a "enxugar gelo". Pois o problema dessas medidas ditas emergências é que elas representaram no geral um custo alto (a  estagnação da agenda política e do planejamento do país, e portanto paralisação das outras instituições que não o executivo federal), mas tem efeito inócuo ou pouco representativo na realidade dos brasileiros.

 
       Vejamos o exemplo de um outro programa carro de frente da Dilma desde os tempos Lula, o PAC. Na época de seu lançamento, o objetivo era o de fazer um "choque de investimentos e na administração pública", contemplando medidas a serem tomadas entre os anos de 2008 e 2010, e algumas medidas que teriam efeitos de longo prazo.

        Veja algumas notícias do lançamento do programa `a época:




        O programa era para ser temporário, justamente para realizar algo que se pretende agora, aumentar, como uma medida emergencial, a taxa de investimento público, declaradamente muito baixa e insuficiente para repor adequadamente a infraestrutura do país. Obviamente que era sabido que deveria haver um aumento estrutural na capacidade de investimento do estado, mas o programa se propunha a dar um salto nos investimentos a partir de algumas medidas e obras. O que ocorreu no entanto é que as ações não saíram do papel na velocidade desejada, os efeitos demoraram a surgir, e o programa, que era para ser temporário, acabou se tornando permanente.


         Porque então a Dilma tem a mania de anunciar suas medidas como emergenciais e temporárias? O Minha Casa, Minha vida, também pretendia-se a solucionar, em grande medida, o problema do déficit habitacional no país. Após alguns anos, constatou-se que a maior parte do crédito destinava-se a imóveis de classe média e alta, de modo que o programa estava servindo mais para encher os cofres das grandes construtoras a juros subsidiados. As casas realmente populares são poucas, demoraram a sair, e sendo feitas quase que directamente pelo governo, não são raras as denúncias de malfeitorias e desperdício de dinheiro público


        O ganho político eleitoral de se anunciar o fim do déficit habitacional (ou o fim da miséria, como se pretende agora), no entanto, não tem preço. Adiciona-se a isso grande parte do autoritarismo nacionalista da presidenta e chega-se então `a sua fórmula de governar por bravatas, que acabam com o tempo desmoralizando as ações do próprio governo. Felizmente, o povo brasileiro atem-se cada vez mais `a prática das necessidades do dia a dia, e menos aos discursos ideológicos de seus governantes. (Apenas para ser justo, o próposito inicial do programa, “construir 1 milhão de casa”, 4 anos após o lançamento, foi cumprido, mas para mim ainda não é claro quantas desse total são realmente populares. http://mcmv.caixa.gov.br/numeros/).


        No caso do programa dos médicos, o custo político-eleitorial também é baixo, dada a estratégia dilmista (varguista) de tudo ou nada (ou estao comigo ou contra mim). Na verdade o governo já está lucrando eleitoralmente com a medida, num momento em que as manifestações apenas deram uma trégua. É difícil ir contra a medida; independentemente de seu efeito, ela vai ajudar o Padilha a sair como candidato nas eleições do ano que vem.  Obviamente que os médicos não são a causa do problema, mas são parte dele, assim como o funcionalismo público no geral. Contrapor a classe seria ótimo, se algo fosse realmente feito. Permitir que os médicos estrangeiros fossem para onde quisessem, aumentando a concorrrência nos lugares de maior oferta de trabalho e permitindo a equalização dos salários nas diversas áreas seria o primeiro passo. Médicos cubanos trabalhando para o Brasil e recebendo de Cuba, com restrição completa de escolha de local de trabalho, coexistindo com o regime normal dos médicos, não faz sentido nem do ponto de vista moral, nem econômico (pra começar, esse plano vai sistematicamente trazer mais médicos, ou será enterrado após a campanha do ano que vem?)
  

      O que o Brasil precisa em seus vários setores (inclusive na política) é de mais concorrência, e não da criação de mais regimes de excepcionalismos.


      A Dilma não vê problemas em colocar a população contra os médicos, assim como colocou contra os bancos, contra as empresas, etc...


       Para justificar minha descrença inicial neste governo, vou ficar apenas em dois do que seriam objetivos fundamentais da Dilma (vou pegar leve e nem vou citar a meta principal de “erradicar a miséria”): a política de juros e de investimentos.

    
       A Dilma comprou uma briga com o Banco Central para a redução sistemática dos juros. Não há segredo nenhum disso. A subordinação do presidente do Bacen aos interesses do Ministério da Fazenda, em tese em defesa da produção e emprego em detrimento do controle da inflação, foi um retrocesso (mais económico do que institucional) em relação ao que se tinha no governo Lula. Na prática, o que se tem hoje é que os juros estão no mesmo nível de maio de 2012, o segundo ano do governo Dilma, quando ela começou a forçar uma queda maior dos juros, com uma inflação MAIOR do que antes! Eu me pergunto: de que adiantou afinal esse esforço intervencionista do governo, a não ser para deixar claro para toda a sociedade quem mandava no governo?


       As trajetórias da SELIC e do IPCA nos ultimos anos:




     É sabido também que o efeito das variações na SELIC (a taxa de juros afectada pelas decisões do Bacen) não apresentam efeito imediato e previsível sobre as atividades económicas, sobretudo em relação em relação ao consumo. De fato, a SELIC tem efeito sobretudo na liquidez de agregados monetários mais gerais, próximos `a moeda. O crédito pessoal permanece com juros muito altos, sobretudo devido ao "spread", uma espécie de taxa de serviço, ou mesmo de lucro, paga ao banco. A Dilma comprou outra briga com os banqueiros pela redução do spread e depois estendeu a pressão para toda a iniciativa privada. O discurso oficial era: "os bancos e as empresas lucram muito, mas prestam péssimos serviços e cobram altos juros e altos preços".


     A guerra contra os mal serviços estendeu-se até mesmo sobre as ações e investimentos públicos, comprometendo a licitação de hidreléctricas e de obras em aeroportos, dentre outras, para a iniciativa privada. No geral, o governo considerava as condições da iniciativa privada abusivas, dada a qualidade do serviço. As medidas do governo com esse teor neo-nacionalista atingiu seu ápice no início de 2014 com 2 medidas: o desconto na conta de luz e o congelamento dos preços de transporte público em algumas capitais.


       No final nao mudou nada, só piorou, ainda vivemos no mundo dos juros enormes e serviços calamitosos.   


        Se as medidas no geral tem pouco efeito prático para a população, podem haver alguns malefícios claros: o regime de excepcionalidade que se instala com o discurso da presidente; a face paternalista de que somente a presidente pode solucionar os problemas graves e emergenciais; de que os outros poderes sempre devem sucumbir `a vontade e `a açao do executivo, tal qual um poder moderador. O efeito desse discurso que paralisa a agenda política do país realmente relevante – uma agenda de todos e não exatamente uma agenda do governo – se faz sentir lentamente. O regime de excepcionalidade dos entes privados se dá uma vez que a própria ação pública é emergencial, logo o tratamento diferenciado daqueles que deveriam ser tratados como iguais é inevitável (no caso, as empresas privadas, como aquelas selecionadas a dedo pelo BNDES ou para exonerações tributárias). 


     A ação do governo é sempre pontual e concentradora de renda, além do que sempre restrita – especialmente em um estado concentrado no plano federal como o nosso. Medidas paliativas como as citadas apenas criam duas categorias: os privilegiados ligados `a máquina estatal e os outros, sendo que aos “outros” é mandado importante recado: “Parem de se esforçar pelo país e se esforçem pelos objetivos do governo e para o governo”, o que é prontamente atendido em um país sem tradição meritocrática como o Brasil.


      Vive - se pelas brechas institucionais: falhas legalmente aceitas no sistema político e jurídico, que limitam o desenvolvimento de longo prazo, mas que são potencializadas pelas elites atuais para o atendimento imediato de suas necessidades. Daí institucionaliza-se as brechas, que são falhas na aplicação prática da constituição, abertas pela própria legislação que abre espaço aos operadores do direito e `a sociedade, em inúmeras situações anômalas: universidade gratuita para os ricos, impostos regressivos e sobre itens de consumo básico, intervencionismos em órgãos que deveriam ser independentes, como o Bacen, além de órgãos de controle da administração e ambientais, além de toda a discricionariedade juridicional em favor dos ricos - são comuns prisões arbitrárias aos pobres e recursos infinitos somente aos ricos, etc.
  
         
          As propostas apresentadas são discutíveis. Não tenho a pretensão de propor uma solução única e definitive para o Brasil. Alguns objetivos no entanto são quase consensuais, inclusive estabelecidos em lei. É louvável por exemplo de se reduzir a pobreza ou a desigualdade. O problema é que esse quadro se deve a uma simetria de direitos entre a população, o que os economistas chama de igualdade de oportunidades, daí se incluindo tanto os direitos fundamentais, legalmente estabelecidos, quando daqueles advindos de um inserção real e mais completa,  abrangendo uma igualdade política e cultural.


        Ora, o discurso de excepcionalismo age exatamente contra essa igualdade, pois cria mais regimes diferenciados e atua contra  toda a igualdade plena (que inclui a liberdade de todos), que só é válida se institucionalisada horizontalmente, para todos.


         Os melhores feitos dos governos no Brasil provavelmente foram feitos com base nesse discurso, assim como os piores. Adiciona-se a ele a “doutrina do brasileiro genuinamente bom e cordial”, hipocrisia fundada pelas nossas elites promíscuas desde os tempos coloniais para disciplinar o povo e aceitar a dominação. Repito então o raciocínio: com base na doutrina do brasileiro cordial e da emergencialidade da situação, os politicos fizeram as melhores coisas, e as piores coisas. Não se trata de questionar as medidas em si aqui, mas de analisar um modus operandis, que me parece muito mais revelador, e se ele de fato está nos levando a um desenvolvimento real.


        O Brasil é um país com instituições sólidas e talvez o tempo já seja suficiente para o país evoluir naturalmente. Porém, talvez também isso ocorra a uma velocidade menor do que seria "aceitável", o que não é bom, especialmente se estamos considerando a situação emergencial. Além disso, o problema mundial da democracia ainda nem repercutiu direito aqui, para além das manifestações de junho. Somente quando resolver seus problemas antigos o Brasil estará apto a pensar em uma Nova Democracia.


       O desafio brasileiro, por isso mesmo, é ainda maior: garantir as condições básicas da população, que deveriam ter sido atendidas a décadas, ou séculos, sem prejudicar ou coibir as instituições democráticas que deveriam funcionar na Nova Democracia – é esse o atalho que a presidenta Dilma parece insistentemente querer pegar.

     * MAC