sábado, janeiro 16, 2010

Chinternet

16/01/2010
Chinternet
Le Monde

Já é bem raro ver gigantes da indústria colocando a ética acima de seus interesses comerciais para saudar, em seu devido valor, a reação do Google frente à censura chinesa. Irritado com um número crescente de tentativas de penetração em seus servidores visando espionar os opositores, o número um americano da internet acaba de dizer claramente ao governo chinês: ou param com os ataques e deixam o mecanismo de busca google.cn funcionar sem entraves, ou o Google encerra suas atividades na China, retirando-se do país.

Para a empresa americana, é uma completa inversão de estratégia. Para colocar um pé nesse gigantesco mercado, o Google, assim como outros, aceitou em 2006 limitações de ordem política para seu mecanismo de busca. A empresa havia apostado que, ainda que censurada, sua presença na internet da China e o imenso campo de possibilidades, de informação e de trocas que ela ofereceria aos internautas locais compensariam os efeitos da censura, no final das contas.

Mas a situação se tornou incômoda demais para o Google. Quanto mais os cidadãos chineses se comunicam e tomam iniciativas na internet, mais o regime aumenta os obstáculos para suas atividades, com métodos cada vez mais sofisticados. Desde os Jogos Olímpicos em Pequim, em 2008, a tendência é constante. Diretamente visado, o Google concluiu que agora os inconvenientes de sua presença no império do Meio prevalecem sobre as vantagens. A relação de uma empresa como o Google com seus usuários através do mundo se baseia na confiança, e o que acontece na China tende a romper essa ligação.

O Google se recusa a ser um instrumento de repressão política e conta, em suas negociações com as autoridades chinesas, com divisões hipotéticas dentro do governo. Por enquanto Pequim permanece inflexível, e é difícil ver o regime cedendo às exigências do Google.

É uma dura lição, e não somente para o Google, que hoje se questiona se o acordo fechado em 2006 foi uma boa ideia. Outros - Yahoo, Microsoft, para citar só alguns - devem se fazer a mesma pergunta. A China claramente não teme a prova de força com os ocidentais nesse terreno: hoje ela possui seus próprios gigantes da internet e quer controlar seu ciberespaço. A uma internet aberta e globalizada, ela prefere aquilo que um especialista americano, Xiao Qiang, chamou de "Chinternet". No confronto Chinternet contra Internet, não é nem garantido e nem desejável que o primeiro saia vencedor.

Tradução: Lana Lim

Democracias em crise

Fraqueza institucional, muitas vezes sob nova roupagem, continua a marcar a vida política de países latino-americanos

POPULISMO , turbulência, ditaduras e caudilhos constituem fenômenos recorrentes na história latino-americana. Não deixa de surpreender, todavia, que no final da primeira década do século o continente ainda seja palco de crises, desmandos e aventuras como as que, em graus variados de intensidade, registram-se em países tão distintos quanto Argentina, Venezuela e Honduras.
Enquanto forças do Exército, transformadas em fiscais de preços, vigiam gôndolas de supermercado em Caracas, a Argentina se torna palco de investidas voluntaristas por parte da presidente Cristina Kirchner. Após suas tentativas de intimidar um jornal oposicionista, pretendeu exonerar o presidente do Banco Central argentino, ferindo o protocolo expresso na Constituição.
Em comum, Venezuela e Argentina vivem situação econômica delicada, que se segue a anos de rápido crescimento.
Índices negativos ou próximos de zero no PIB, inflação elevada, ambiente desfavorável ao investimento privado, dependência extrema de exportações primárias, gestão pública errática e demandas sociais agudas criam uma conjuntura de óbvias dificuldades para os dois países. Seus governantes acentuam, assim, traços providencialistas de comportamento.
Nem a prosperidade do início da década nem a crise atual oferecem, entretanto, explicações suficientes para o subdesenvolvimento político e a tentação autoritária que, com exceção cada vez mais marcante de Brasil e Chile, ainda caracterizam tantos países latino-americanos.
O cientista político argentino Guillermo O'Donnell criou há tempos o conceito de "democracia delegativa", em contraste com a clássica ideia da "democracia representativa". Seria o hiperpresidencialismo, fundado na deterioração do sistema parlamentar e no descrédito das organizações partidárias.
Se, no caso venezuelano, o poder de Hugo Chávez se aproxima do puro caudilhismo, parece generalizar-se, e não só na América Latina, um sistema em que liberdades democráticas coexistem com o providencialismo do presidente, a baixa alternância no poder, a cooptação de Legislativo e Judiciário e a ameaça à liberdade de imprensa.
O processo, que pode encontrar paralelos, por exemplo, na Rússia de Vladimir Putin, não se restringe ao legado típico do populismo sul-americano. O presidente Álvaro Uribe, da Colômbia, em tudo se afasta do modelo chavista -exceto no seu intento de propor um referendo para assegurar uma segunda reeleição.
De certo modo, é como se o atraso social, econômico e político continuasse a bloquear, em pleno século 21, o acesso de muitas nações à solidez da democracia representativa de massas, que em meados do século 20 já havia se consolidado nos países centrais.


Editorial, Folha de São Paulo.

Cobertura da midia no Haiti - NYTimes

Media Struggle to Convey a Disaster

By BRIAN STELTER and RICHARD PÉREZ-PEÑA
Published: January 14, 2010
The Fox News correspondent Steve Harrigan is a veteran of the world’s worst calamities, but on television on Thursday afternoon, as he stood beside one of the piles of rubble that pockmark Port-au-Prince, Haiti, he broke down.

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He had watched a woman wailing in the street, having lost four of her children to Tuesday’s earthquake and the fifth child at a hospital later.

“That kind of loss is horrific in any culture, but in a culture where you’re utterly” — Mr. Harrigan lost his composure while trying to say the word “alone” — “it just makes it all the more difficult.”

Amid banner headlines and hours of television coverage, reporters and anchors struggled to convey the enormousness of the devastation in Haiti on Thursday, as the world’s news media directed their collective attention to the crippled country.

By Wednesday evening, about 24 hours after an earthquake estimated at a magnitude of 7.0, two of the nation’s three network evening news anchors were live on television, albeit barely, in Port-au-Prince. Reporters and photographers for major newspapers had also reached the city. By Thursday, larger contingents of reporters had arrived.

“Outside of a military conflict, this is the biggest international deployment since the tsunami” in 2004, said Tony Maddox, the managing director of CNN International.

In some cases, reporters and anchors were arriving well ahead of international relief organizations. In other cases, they were hitching rides with them.

“Wherever you are,” Anderson Cooper of CNN said Wednesday night, “hug a loved one close and thank God you are not in Port-au-Prince tonight.”

The broadcast networks expanded their half-hour newscasts to one hour each on Wednesday and Thursday. ABC News produced a special report in prime time on Thursday, pre-empting an episode of “Grey’s Anatomy.”

According to The Columbia Journalism Review, there is only one foreign correspondent based in Haiti, Jonathan M. Katz of The Associated Press. The news agencies Reuters and Agence France-Presse employ Haitian-born reporters in the country.

Initially, networks and newspapers found themselves supplementing professional reporting with the Twitter tweets and cellphone videos of witnesses in Haiti.

On Wednesday, when no Wall Street Journal reporter had yet been able to reach the scene, former colleagues suggested recruiting Pooja Bhatia, 33, a former Journal reporter living in Haiti on a fellowship. Hers was one of two bylines on the top article on the paper’s front page on Thursday. The same day, The New York Times published a first-person article by her on its Op-Ed page.

“I was here during the 2008 hurricanes that left thousands dead, and thousands and thousands homeless, and that felt like the apocalypse,” Ms. Bhatia said in an interview. “But that pales in comparison to this.”

In Haiti, “the biggest challenge is that the entire infrastructure of Port-au-Prince has collapsed,” said Steve Capus, the president of NBC News.

Reporters equipped themselves with satellite phones and clips that allow them to draw power from car batteries for their laptops, cameras and phones.

Several times in the continuing cable news coverage, Mr. Cooper and other reporters drew comparisons to the scenes they witnessed after Hurricane Katrina in 2005.

The CNN correspondent Gary Tuchman said: “Roll back the clock four and a half years ago. What déjà vu.”

deu no globo

A crise persiste (Editorial)

O presidente Lula continua a trabalhar para evitar que o desastrado, para dizer o mínimo, “programa de direitos humanos”, desenhado pelos agrupamentos de esquerda do seu governo, continue a causar danos políticos.

No que se refere aos militares, contrários, com razão, à tendenciosa revisão da Lei da Anistia embutida no programa, o presidente considera ter contornado a crise, por meio de uma alteração semântica.

Em decreto presidencial com data de quarta-feira passada, dia 13, sobre a criação de um grupo de trabalho para propor a instituição da tal Comissão da Verdade, ficou estabelecido um novo objetivo para ela: examinar “violações de direitos humanos” ocorridas na ditadura, em vez de vasculhar responsabilidades por esses crimes, cometidos na “repressão política”.

O objetivo é acabar com o dirigismo da versão anterior do texto, apontado apenas para os militares, sem incluir a guerrilha.

Em nome dos militares, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, antes de embarcar às pressas para o Haiti, se disse satisfeito, bem como a outra ponta da crise, Paulo Vannuchi, ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, um dos principais artífices de toda essa operação de contrabando para o programa de propostas equivocadas, muitas dos tempos do PT radical de oposição, e várias inconstitucionais.

A posição supostamente magnânima de Vannuchi dá a entender que ele e os grupos da “sociedade civil” que debateram as propostas — na verdade, militantes, representantes de corporações sindicais, nada que represente a sociedade brasileira como um todo — ainda esperam impor à nação ingredientes do “programa de direitos humanos”, um cartapácio de 73 páginas, 23 mil palavras, com sugestões de 27 novas leis, trabalho para uma Constituinte.

A questão, portanto, ao contrário do discurso oficial, está longe de ter sido superada. Ontem, Lula criticou criadores de “chifre em cabeça de cavalo”, ou seja, quem denuncia a manobra de se tentar, por meio desse programa, agredir princípios constitucionais inegociáveis, como a liberdade de imprensa e a propriedade privada.

O problema é que o “chifre” continuará na “cabeça do cavalo” enquanto todas as aberrações incluídas no programa não forem revistas.

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sexta-feira, janeiro 15, 2010

Quem está à esquerda de quem?

Os tropeços do PDSB mais que compensam as trapalhadas do PT. Realmente, é impossível termos um partido no Brasil que se autodenomine de direita, especialmente porque, durante a ditadura, que deixou marcas, os "intelectuais" chamavam de direitistas aqueles que eram pró-ditadura, assim como os militares associavam os esquerdistas a, não só comunistas, mas a vândalos, marginais e terroristas. Obviamente, o termo está em desuso e sem apelo em todo o mundo, especialmente agora depois da crise. Obviamente também, os conceitos não retratam exatamente a realidade. No caso do Brasil, eu acho uma tristeza não termos um partido ou grupo político que defenda uma visão mais liberal do estado, com menos interferências na economia e na vida privada. Se alguém abriu um video do "entre aspas" do G1 que eu mandei, viram um economista dizendo justamente que não existe no Brasil nenhum grupo político que consiga fazer um link entre, por exemplo, a corrupção e os altos impostos pagos. Não existe alguém que diga: "Olha gente, a corrupção tem um efeito prático nas nossas vidas. Vocês estão dispostos a pagar esse custo, essa inefiência? Ou seja, voces querem pagar menos impostos, pagar menos pela corrupção?" Sem esse tratamento, o discurso da ineficiência perde qualquer sentido político e eleitoral, pois as pessoas não vem uma relação entre problemas como esses e seus bolsos.
A minha decepção é ainda maior com o PSDB, porque eu acho que este seria o partido que teria maiores condições de implementar esse discurso. Acho que eles deveriam fazer um compromisso de manter as políticas sociais, mas sem comprometer o discurso da estabilidade fiscal e monetária que eles próprios iniciaram no governo FHC. Por outro lado, o PT (leia-se Lula) começou com o discurso anti-esquerdista e passou a pelo menos em parte ouvir os apelos pró-mercado e pró-liberalismo, mais do que antes pelo menos. Juntando ambos os discursos de forma hipócrita e oportunista, Lula transformou-se no mito a que se refere o Eugenio Bucci em recente artigo no Estadão. Eu me lembro em 2002, quando o Lula ganhou, eu estava na Av. Afonso Pena, junto com uma multidão, e em um telão imenso apareceu o o Lula respondendo a uma pergunta no Fantástico sobre qual seria a reação do mercado a sua vitória. Ele disse algo simples como: "O mercado tem que entender que o povo brasileiro passa fome e precisa comer". O povão foi ao delírio, lógico. Os primeiros meses de 2003 mostraram no entanto que o pt do Lula não estava disposto a enfrentar o mercado, não na eminência de uma crise.
É verdade que o governo do FHC foi muito melhor que o pensamento médio dos militantes do PSDB, e o do Lula em relação ao PT nem precisa dizer.... A grande força do Lula acho que vem daí: mantém políticas relativamentes austeras, e mantém sob controle ampla parcela dos radicais de movimentos sociais e etc. A questão é que se o PSDB for adotar um discurso mais social, também não pode abandonar o discurso da eficiência e da boa gestão - a grande questão é fazer o link entre o discurso da eficiência e da responsabilidade social, coisa que o Lula, mesmo roubando sistematicamente parte do discurso do PSDB, não consegue. Dar bolsa-família ou criar programas habitacionais são meros paliativos - o que irá realmente reduzir a pobreza no Brasil para níveis razoáveis é abaixar os impostos, que são extremamente regressivos no Brasil. Se o povão ficasse sabendo o tanto que eles pagam em impostos quando compram alimentos e materiais de contrução, será mesmo que eles não iriam aderir a um discurso de menor tributação? O problema é que no Brasil a maioria nem sabe o quanto está pagando em impostos embutidos nos preços...
Concluindo, eu acho que a única solução para o PSDB reverter a situação, pois acredito que a vantagem atual é mesmo da Dilma, seria, de uma forma totalmente inesperada, defender com vontade, no que deve ser defendido, o governo do FHC. Não é necessário demonizar o Lula: é só fazer uma propaganda mostrando como o Brasil melhorou nos últimos 16 anos, e que tal processo começou com o FHC, sendo aperfeiçoado pelo Lula. Essa vergonha dos tucanos em relação ao governo FHC é uma lástima, pois deixa o partido totalmente na defensiva.