terça-feira, janeiro 26, 2010

Globo News Milênio

O perigeu do Império da Ilusão

Entrevista com o Chris Hedges...Vale a pena conferir...

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Os desafios da cultura do narcotráfico

Parece que a razão começa a ter mais espaço nessas discussões...


The New York Times

Tomas Eloy Martinez

Os romancistas estão sempre um passo adiante da realidade. Por volta de 1930, o argentino Roberto Arlt vislumbrou em seus dois grandes romances, "Los siete locos" e "Los lanzallamas", a trama fascista que pairava sobre as nações jovens do sul. Também hoje a guerra contra as drogas e o narcotráfico impregna boa parte da literatura, sobretudo na Colômbia e no México, onde a cultura narco se infiltrou em todos os aspectos da vida.

Expandida como um vírus, a cultura narco põe e derruba governos, compra e vende consciências, se apodera da vida das famílias e agora da vida das nações. A cultura narco é a cultura do novo milênio.



Mulheres portam placas contra o uso de armas e o confronto entre militares e membros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), durante protesto em favor da paz no centro de Bogotá, na Colômbia. A guerra civil na Colômbia mata cerca de 3500 pessoas por ano no país, segundo dados do próprio governo colombiano

Todos os dias os noticiários expõem cadáveres que se organizam entre "decapitados" e "severamente mutilados". Os bandidos já não têm uma pátria, mas invadem todas elas: o cartel de Sinaloa tem laboratórios na província de Buenos Aires, os bandos que atuam nas sombras impõem guerras nas favelas do Rio de Janeiro ou nas vilas de San Martín na Espanha ou Boulogne na França.

A traição, caso se suspeite, é castigada com atos mafiosos; se provada, com crimes que trazem mais mortes, em uma escalada de vinganças infinitas.

Em seu romance póstumo "2666", o escritor chileno Roberto Bolaño relatou em toda a sua crueza e horror os assassinatos de mulheres em Santa Teresa, transmutação literária de Ciudad Juárez, um enclave fronteiriço com El Paso, Texas, onde há décadas governam a violência e a impunidade. Essas mortes narram um crime contínuo, uma história que nunca acaba.

Um empresário poderoso que observa como seu país está sendo minado pelos narcotraficantes, em cumplicidade com a corrupção do poder, decide vencê-los "sendo mais criminoso que eles" na última novela do escritor mexicano Carlos Fuentes, "Adán en Edén". A maneira como o dinheiro sujo do narcotráfico penetra na sociedade provocou picos de audiência na versão para a TV de "Sin tetas no hay paraíso", a história em que Gustavo Bolívar, escritor colombiano, conta como uma jovem de 17 anos se prostitui para comprar seios maiores e assim ter acesso ao círculo dos traficantes.

A lista vem colecionando títulos em sintonia com o ritmo em que a morte e a corrupção avançam pelo continente: "Rosario Tijeras", do colombiano Jorge Franco, "La reina del surpresa", do escritor espanhol Arturo Pérez Reverte, "Balas de Plata", do mexicano Élmer Mendoza, ou "La virgen de los sicarios", do colombiano-mexicano Fernando Vallejo, são apenas alguns exemplos com um denominador comum: cada golpe contra o narcotráfico é devolvido com outro golpe ainda maior.

É o que aconteceu com o presidente Álvaro Uribe na Colômbia e agora com o presidente Felipe Calderón, no México. Enquanto isso se destroem pessoas, famílias, povoados, culturas. Cada dia fica mais evidente que a guerra não é a solução para o problema e que a única via possível é enfrentá-lo pela raiz, isto é, pela despenalização do consumo.

As inteligências mais lúcidas do continente insistem que é imperioso chegar a um acordo de cooperação entre traficantes e consumidores. Quando se romperem esses pactos sinistros de silêncio e dinheiro, e o comércio de drogas sair à luz do dia, como o álcool depois da Lei Seca, talvez até os próprios traficantes descubram as vantagens de trabalhar dentro da lei.

A descriminalização avança. A Espanha, que trata a dependência de drogas como um problema de saúde, foi o primeiro país europeu a descriminalizar o consumo de maconha. A posse para uso pessoal não é delito, embora o consumo público seja penalizado com multas administrativas, e sua legislação contra o tráfico está entre as mais severas da Europa.

Há poucas semanas, na contracorrente de um costume aprovado pelo ex-presidente George W. Bush, o governo do presidente americano Barack Obama estabeleceu que os promotores federais não gastarão seus recursos para deter pessoas que usam ou administram maconha com fins medicinais.

Talvez o caso mais conhecido seja o da Holanda, onde a rigor é crime o consumo de qualquer substância proibida. Só há certa consideração para o acesso à maconha nos chamados "coffee shops", lugares reservados para a compra e o consumo de menos de 5 gramas diárias.

Na Argentina, uma decisão da Suprema Corte de Justiça estabeleceu que o consumo pessoal de maconha não é crime, e também concentrou em um só juizado federal tudo o que se relaciona ao "paco", um veneno barato que arrasa os círculos mais pobres da população.

A descriminalização é a cura de todos os males? A linguagem das armas demonstrou seu fracasso e a história já escreveu seu exemplo mais contundente quando os EUA proibiram o consumo de álcool durante os 13 anos que durou a Lei Seca. A proibição, que começou em 17 de janeiro de 1920, longe de fazer desaparecer o vício, provocou a criação de um mercado negro do qual surgiram todos os Al Capones, os Baby Face Nelsons, os falsos heróis como Bonnie & Clyde e uma legião de "padrinhos" que semearam o terror a sangue e fogo. Como era quase previsível, muito cedo a corrupção se apoderou das consciências policiais.

Dos agentes encarregados de zelar pela proibição, 35% terminaram com processos abertos por contrabando ou cumplicidade com a máfia e, como era previsível, logo apareceram as estatísticas nefastas: 30 mil mortos e 100 mil pessoas vítimas de cegueira, paralisia e outras complicações por intoxicação com álcool metílico e outros adulterantes, aos quais recorriam os bebedores desesperados.

Em 1933, quando Franklin D. Roosevelt aboliu a Lei Seca, o crime violento diminuiu dois terços. Nos EUA não se acabaram com os bêbados, mas desapareceram os Al Capones.

A arma mais eficaz contra os chefes do narcotráfico é arruinar seu negócio. E a única via possível para derrubá-los é legalizar o consumo. Não se trata de incentivar o consumo, mas de controlá-lo melhor, investindo em campanhas eficazes de saúde pública.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves


Tomás Eloy Martínez

Analista político e escritor, o argentino Tomás Eloy Martínez é autor de livros como "Vôo da Rainha" e "O Cantor de Tango".

Globo News Painel

Um debate sobre democracia e política na América Latina...

PARTE 1



PARTE 2

sem fronteiras - HAITI

Revela que as sucessivas intervenções militares dos EUA no século XX em grande parte desestruturaram o país.


Sexta-feira, 22/01/2010

Com a tragédia que devastou o país mais pobre das Américas, a ajuda internacional enfrentará o desafio de recontruir o Haiti. No entanto, a quem pertencerá essa responsabilidade?


clique sobre o link para ver no g1

Carga tributária, um tema popular

Excelente artigo do Alberto Almeida, diretor do Instituto Análise, que fez a pesquisa, a respeito da carga tributária. Ele deu uma entrevista par ao entre" há um tempo atrás que eu mandei pra cá....


http://gilvanmelo.blogspot.com/2010/01/eleitorado-de-todas-as-classes-sociais.html

domingo, 24 de janeiro de 2010
Eleitorado (de todas as classes sociais) apoia redução de imposto
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Alberto Carlos Almeida*

Nas eleições presidenciais os candidatos tratam de todos os temas. Isso é resultado de nossa estadolatria. Adoramos o Estado e ele é capaz, ou deveria ser, de resolver tudo: desde as coisas mais óbvias, como saúde e educação, até a prevenção de acidentes naturais como enchentes, organizar festas de réveillon e financiar cachorros guias de cegos.

Nos países desenvolvidos os governantes admitem que há limites, por exemplo, para lidar com os transtornos causados por nevascas. Simplesmente há o aviso da nevasca e a solicitação para que as pessoas não saiam de casa. No Brasil, por enquanto, e pensando somente nos transtornos e não nas tragédias, essa admissão de não-onipotência de nossos governantes é inviável. Assim todos os candidatos a todos os cargos no Brasil tratam de todos os assuntos e prometem resolver tudo, desde que, é claro, controlem os recursos necessários para isso.

Apesar da profusão de temas o eleitorado tem um grande motivo para escolher o presidente que o governará. O eleitor vê no presidente o facilitador de seu consumo. Na campanha de 1994 poucos de nós se recordam dos cinco temas representados por cada dedo da mão símbolo da campanha de Fernando Henrique. Mas todos se lembram que o Plano Real e a redução abrupta da inflação foi o principal tema da campanha. O motivo é simples: a redução da inflação aumentou a capacidade de consumo da maioria do eleitorado.

Em 1998 um pouco de esforço trará de volta para a nossa memória o desejo do eleitorado de, em meio a uma grave crise econômica mundial que atingia especificamente os países emergentes, não perder o que conquistara com a estabilização da moeda. O tema, portanto, foi: qual dos candidatos será o mais capaz de assegurar que não iremos andar para trás em nossa capacidade de compra, de consumo.

Em 2002 o tema foi outro, desemprego, e ele levava a outro resultado final, completamente oposto àquele experimentado nos últimos seis ou sete anos. O desemprego resultava na redução da capacidade de compra da população. Se em 1994 e em 1998 o eleitor chamou Fernando Henrique para lidar com a inflação, e ele fez isso com grande sucesso, em 2002 o problema era diferente e, por isso, a pessoa a ser chamada também seria diferente. Seria alguém que sempre lidou com emprego e salários e que sempre tratou da questão social. Cada pessoa é talhada, em função de sua imagem pública, para resolver problemas diferentes.

Quatro anos depois Lula foi reeleito. Aqueles que em 2005 pensavam que o tema seria o mensalão enganaram-se redondamente. Corrupção não tem impacto direto sobre a capacidade de consumo da população. O seu impacto é extremamente mediado por diversas circunstâncias e inúmeros fatores. Ao contrário, o Bolsa-Família tem impacto direto e imediato na capacidade de compra de quem o recebe e serve de sinalização, para quem não é beneficiário do programa, de que o governo cuida das pessoas e se preocupa com a população.

O grande tema de 2006 foram os programas sociais, com a sua vedete no carro abre-alas, o Bolsa-Família, e a consequência que tais programas têm: aumentam enormemente a capacidade de compra da população, ao menos na percepção da própria população.

Duvido que em 2010 quem prometer reduzir a inflação terá chance de ser eleito. A inflação de 2009, 4,3% foi a terceira menor desde 1980. Quem prometer reduzir o desemprego também não será eleito. A taxa média de desemprego de 2002, quando ele foi a principal questão da campanha, foi de 11,7%. A taxa média de desemprego de 2009 foi aproximadamente 30% menor do que em 2002: 8,1%.

Igualmente , o Bolsa-Família não será o tema de 2010. Creio que pelas mesmas razões que colocam a inflação fora do time de candidata a principal tema da campanha. O Bolsa-Família, na cabeça do eleitor, está consolidado. Para o eleitor o próximo presidente não ameaçará o Bolsa-Família porque isso seria contra ele próprio, presidente.

Há, para 2010, um tema latente junto ao eleitorado, um tema que já está presente, com muita força e que é ignorado pela elite brasileira. A população de todas as classes sociais, isso inclui os mais pobres, sabe que paga impostos, acha que os pobres é que realmente pagam impostos, considera-os elevados e gostaria que fossem reduzidos para poder comprar mais. No último ano e meio o governo contribuiu para reforçar essa percepção. Ele inadvertidamente e contra seu interesse educou a população ao reduzir o IPI de bens muito desejados.

Aliás, enganam-se os que acham que o povo não sabe que paga impostos, especificamente aqueles sobre os bens e serviços que compram. Com o passar dos anos a informação circulou e chegou a todos os brasileiros. Não se trata de uma informação neutra, a de que ele paga impostos, é algo que tem impacto em seu interesse imediato, em seu dia a dia, em sua capacidade de compra.

Essa informação chegou por meio da campanha contra a MP 232, da campanha contra a CPMF, do Impostômetro, das demissões de trabalhadores que acontecem todos os dias quando o patrão diz que está demitindo porque os impostos são altos, por meio da conta de luz, em função de propostas de trabalho sem carteira assinada com um salário mais elevado, etc. As pessoas sabem que pagam impostos. Pergunte a sua empregada se ela paga impostos ao comprar alimentos e bebidas, na conta de luz, ao comprar roupas, ao pagar a passagem de ônibus. Ela vai dizer que paga impostos e que compraria mais alimentos se os impostos fossem menores.

Em todos os países do mundo desenvolvido, clube para o qual o Brasil se sente cada vez mais preparado e autoconfiante para tomar parte, há pelo menos um grande partido político, um grande grupo político com seus respectivos líderes, que defende a redução de impostos com um discurso popular.

Fala-se de impostos publicamente no Brasil, mas os argumentos são para os empresários e para os políticos, tratam de competitividade mundial do Brasil, custos de produção, custo Brasil, etc. Não falam de alimentos, consumo e empregos. Estas sim questões que, devidamente conectadas aos impostos, mobilizam a grande maioria da população brasileira. Por que, afinal, ninguém fala de impostos elevados com um discurso popular? Cabe aos leitores a resposta.

*Alberto Carlos Almeida é cientista político e diretor do Instituto Análise